Bilhões em publicidade: quanto as casas de apostas investem em marketing no Brasil?

INVESTIMENTO EM MARKETING

Rafael Vicente

7/3/20264 min read

Camisas de clubes estampadas com marcas de apostas, placas luminosas nos estádios, influenciadores promovendo plataformas digitais, comerciais em horário nobre na TV, anúncios no Google e nas redes sociais. Em 2025, o universo das bets deixou de ser apenas um segmento de mercado e passou a ocupar praticamente todos os espaços da comunicação brasileira.

O setor de apostas esportivas investiu mais de R$ 1,44 bilhão em publicidade apenas em TV aberta, TV por assinatura e rádio, segundo levantamento da empresa de inteligência de mídia Tunad. O valor, no entanto, representa apenas uma parte do movimento total, já que não inclui investimentos em Google Ads, Meta Ads, influenciadores, afiliados, mídia programática, patrocínios esportivos e outras ações digitais.

Onde esse dinheiro foi aplicado

De acordo com o estudo, a maior parte do investimento em mídia tradicional foi concentrada na televisão aberta, que respondeu por 85% do total aplicado.

O mês de maior volume de investimento foi junho, com R$ 164,5 milhões, enquanto janeiro registrou o menor volume, com R$ 66,7 milhões.

Entre os principais anunciantes no período estão BetMGM, Betano e Betnacional, que juntas concentraram cerca de 62% de toda a verba investida em TV e rádio.

Um mercado ainda maior do que os números oficiais

Embora os dados da Tunad revelem um retrato importante da mídia tradicional, um estudo do departamento de pesquisa do Itaú BBA aponta que o mercado de marketing das apostas no Brasil é muito mais amplo.

Quando se considera patrocínios de clubes e campeonatos, direitos de transmissão, mídia digital, Google Ads, Meta Ads, influenciadores e afiliados, o setor movimenta entre R$ 5,8 bilhões e R$ 8,8 bilhões por ano em estratégias de marketing.

O relatório também indica que as empresas do setor chegam a destinar entre 45% e 75% da receita para publicidade, um patamar considerado elevado em comparação com outros segmentos da economia.

Dados da Kantar reforçam essa expansão: entre 2023 e 2024, o setor de apostas foi o que mais cresceu em investimento publicitário no Brasil, com alta de 47% na compra de mídia, consolidando-se como um dos mercados mais agressivos do país.

Quem aposta no Brasil

O crescimento da publicidade acompanha a expansão da base de usuários.

Segundo levantamentos recentes, o perfil dos apostadores no país é majoritariamente masculino, com 66% a 71% de homens e 29% a 34% de mulheres.

A faixa etária mais ativa está entre jovens e adultos:

  • 18 a 25 anos: 22,4%

  • 25 a 30 anos: 22,2%

  • 31 a 40 anos: 27,8% (maior grupo)

  • 41 a 50 anos: 16,9%

  • Acima de 50 anos: cerca de 10%

Na prática, quase 3 em cada 4 apostadores têm menos de 40 anos.

Quando analisada a classe social, o cenário também foge de um estereótipo comum. A maior parte dos usuários está concentrada nas classes intermediárias:

  • Classe C: 45%

  • Classe B: 27%

  • Classes D e E: 19%

  • Classe A: 9%

Ou seja, aproximadamente 72% dos apostadores pertencem às classes B e C.

Por que as pessoas apostam

As motivações também ajudam a entender o fenômeno. Pesquisas indicam que:

  • 72% apostam por diversão

  • 38% buscam complementar a renda

  • 19% veem como forma de socialização

  • 18% por interesse esportivo

  • 13% para testar conhecimentos

  • 12% afirmam depender das apostas como principal fonte de renda

Segundo dados do governo federal de 2025, 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas no primeiro semestre, com gasto médio de R$ 164 por mês por apostador ativo.

Entre entretenimento e risco

Apesar de ser visto por muitos como uma forma de lazer, o crescimento acelerado do setor também acende alertas.

Estudos recentes indicam que, para parte dos usuários, as apostas podem estar associadas a prejuízos financeiros, emocionais e sociais. Especialistas reforçam que o risco aumenta com a frequência, o tempo de uso e a perda de controle sobre o comportamento.

O transtorno do jogo, conhecido como ludopatia, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma condição de saúde mental.

Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 1,4 milhão de brasileiros apresentam critérios compatíveis com o transtorno, enquanto aproximadamente 900 mil pessoas estão em comportamento de risco ou jogo problemático.

Entre os impactos mais associados estão ansiedade, depressão, estresse intenso, insônia, culpa e isolamento social.

Também são relatados efeitos familiares significativos, como conflitos conjugais, separações, perda de confiança e dificuldades financeiras dentro do ambiente doméstico.

Quem está mais vulnerável

As pesquisas indicam maior risco entre jovens adultos, pessoas em situação de estresse financeiro, usuários frequentes de plataformas digitais e indivíduos que enxergam as apostas como solução para problemas econômicos.

Isso não significa que esses grupos necessariamente desenvolverão problemas, mas que aparecem com maior frequência nos estudos sobre comportamento de risco.

Impacto social e econômico

Um levantamento divulgado em 2025 estima que os custos sociais relacionados às apostas online no Brasil — incluindo saúde, produtividade e impactos sociais — chegam a aproximadamente R$ 38,8 bilhões por ano.

Esses números reforçam o debate crescente entre especialistas e órgãos públicos sobre a necessidade de políticas de prevenção e conscientização.

Um mercado em expansão

O setor de apostas é hoje uma realidade consolidada no Brasil. Gera empregos, patrocina o esporte, movimenta bilhões em publicidade e integra o cotidiano de milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que o ponto de atenção está na mudança de percepção: quando o jogo deixa de ser entretenimento e passa a ser visto como solução financeira, os riscos aumentam significativamente.

No fim, uma pergunta permanece no centro do debate:

Até que ponto esse jogo é realmente equilibrado para todos os lados envolvidos?